Um grupo de investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto (FMUP) concluiu que há casos de maus-tratos sobre pessoas com 65 anos ou mais a escapar ao radar dos centros de saúde, segundo um estudo hoje divulgado.
Em declarações à agência Lusa, salvaguardando que não está em causa o profissionalismo dos profissionais de saúde, a investigadora Sofia Frazão apelou à adoção de medidas, nomeadamente a criação de ações de formação com dicas que ajudem os médicos de família a identificar casos e a conhecer os procedimentos a adotar.
“Neste momento cada vez mais escolas de Medicina têm [a disciplina de] Medicina Legal opcional. É opcional ou não existente mesmo. E, assim, os profissionais, ainda alunos aliás, deixam de ter contacto com estas temáticas. A formação é importante não só em pré-graduados, mas também pós-graduados”, disse a também professora da FMUP.
Na base deste alerta está um artigo publicado em janeiro na revista científica BMC Public Health, especializada em temas de saúde pública, com as conclusões de um estudo que juntou as respostas a um inquérito feito a mais de 350 clínicos de unidades de saúde do Alto Minho, Trás-os-Montes, Douro, Tâmega e Sousa e Área Metropolitana do Porto.
O questionário abrangia 13 itens, desde a perceção da responsabilidade na deteção de casos de violência contra pessoas mais velhas até ao conhecimento dos procedimentos a adotar.
Nas conclusões lê-se que “embora 94% dos participantes concordem que o médico tem a responsabilidade de detetar maus-tratos a pessoas mais velhas, dois terços não desconfiaram de qualquer caso nos 12 meses anteriores ao estudo”.
Dois terços dos médicos dos centros de saúde não suspeitam de pelo menos um caso de maus-tratos a pessoas mais velhas ao longo de um ano.
E, entre os que suspeitam deste tipo de violência (32%), menos de metade reportou essa suspeita às autoridades competentes e 16,9% optaram por não denunciar o caso, a pedido das próprias vítimas ou dos seus cuidadores.