26 AGO 2025

Fernando Rodrigues, provedor da Irmandade de Santa Cruz, em Braga, deu uma entrevista ao Diário do Minho, onde reconheceu as dificuldades por que passam as Instituições Particulares de Solidariedade Social (IPSS) e o setor social solidário em geral. Apesar de reconhecer o reforço das verbas em  2025, este responsável defende que é preciso e de justiça melhorar as condições de trabalho e a remuneração digna dos trabalhadores para a sustentabilidade do setor e para a manutenção de um Estado Social eficaz.

O provedor da Irmandade de Santa Cruz refere que todas as IPSS do País enfrentam dificuldades devido ao envelhecimento da população e à falta de respostas sociais e ainda aos reduzidos apoios do Estado Social bem como os fracos rendimentos das famílias que dificulta a sua ação. 

«Se o Estado Social fosse mais generoso, embora se reconheça que em 2025 o Governo reforçou os apoios às IPSS, mas ainda insuficiente, pois o ideal era que esses apoios correspondessem no mínimo a 50% dos custos mensais com cada Utente e ainda que as Famílias dispusessem de mais rendimentos, os nossos colaboradores poderiam ter melhores salários e menor precaridade laboral, que certamente seria uma motivação com um impacto na qualidade dos serviços prestados».

 


IPSS desempenham enorme papel no apoio aos mais desfavorecidos 

Prosseguindo com uma reflexão mais global, Fernando Rodrigues salienta que as IPSS têm uma «responsabilidade enorme». Afinal, «para além da empregabilidade, acabam por ter o papel de apoio àqueles que são os mais desfavorecidos, dos mais novos aos mais velhos», disse, alertando para o facto de cada vez mais, os «desfavorecidos serem gente nova e que não têm capacidade de suportar os gastos na colocação dos seus filhos num infantário. 

«Sabemos também que os nossos idosos, a sua maioria não tem retaguarda familiar e que têm baixíssimos recursos, com reformas de pouco mais de 350 ou 450 euros, o que incapacita, não só a gestão das instituições, como estas se vêem em dificuldades pelos parcos recursos com que têm que se gerir».

Por outro lado, o líder da Irmandade de Santa Cruz lembra que se uma IPSS tiver bastantes utentes a pagar um valor na ordem dos 400 euros, acrescentando-lhe a componente da comparticipação da Segurança Social e se o seu custo para instituição representar cerca de 1.650 euros, onde obter o diferencial na ordem dos 700 euros? pergunta, para depois concluir:

«Logo, abrimos a porta à fraca saúde financeira associada à crise económica que atravessámos, desarranja completamente em termos financeiros preocupando qualquer dirigente que tudo faz para encontrar a sustentabilidade com os parcos recursos. Por isso, é muito raro aparecerem IPSS com resultados positivos».

 


Setor Social Solidário dá resposta a mais de meio milhão de pessoas 

Ainda numa análise global, o provedor da Irmandade de Santa Cruz frisou o peso do setor social solidário na sociedade portuguesa.

Assim, nas contas de Fernando Rodrigues, que são públicas, no conjunto, o Setor Social Solidário dá resposta a mais de meio milhão de pessoas e emprega cerca de 150 mil trabalhadores.

«Sendo que em muitas localidades as instituições sociais são os grandes empregadores, ou seja, o sustento de muitas famílias e o grande motor de desenvolvimento de territórios cada vez mais esquecidos e desertificados, especialmente no interior do País», salienta.

Este responsável alerta ainda que, a estes números, e só entre as cerca de três mil IPSS, somam-se mais de 30 mil dirigentes voluntários, dos quais um número muito residual (menos de 5%) o não são, ou seja, porque são remunerados pelas funções de Direção. «Por outro lado, e de uma forma mais global a economia social representa cerca de 3% do Valor Acrescentado Bruto (VAB) nacional, 5,5% das remunerações, 10% do emprego remunerado e 6% do emprego total», analisou, antes de concluir: «Resumindo, a sustentabilidade das IPSS depende diretamente da capacidade de gestão.

Planeamento estratégico, equilíbrio financeiro, valorização dos recursos humanos, qualidade dos serviços, diversificação das fontes de financiamento e controlo de custos são os pilares que sustentam o sucesso de uma gestão eficaz.

Só assim será possível garantir que as IPSS continuam a desempenhar o seu papel fundamental no apoio às comunidades mais vulneráveis, de forma sustentável e duradoura», afirmou, em estilo professoral .

Uma enquadramento perfeito para mostrar que o que se passa na Irmandade de Santa Cruz acontece na esmagadora maioria das IPSS do País.

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