26 DEZ 2025

O número de pessoas em situação de sem-abrigo em Braga duplicou no último ano, passando de cerca de 30 para aproximadamente 60 pessoas a viver nas ruas da cidade, uma realidade que está a gerar forte pressão sobre as respostas sociais existentes. O alerta foi deixado pela Cruz Vermelha Portuguesa (CVP) - Delegação de Braga, durante o tradicional almoço de Natal promovido pela instituição.

A iniciativa decorreu no Centro de Alojamento Temporário (CAT) e reuniu cerca de uma centena de cidadãos sem-abrigo apoiados pelas respostas de emergência social da CVP. Para além das refeições servidas no local, foram ainda distribuídas cerca de 150 refeições ao domicílio. Mais do que um momento festivo, o encontro simbolizou partilha, proximidade e esperança num futuro mais digno.

Segundo o presidente da delegação de Braga da Cruz Vermelha Portuguesa, Júlio Faceira Guedes, o almoço tem um carácter simbólico, mas reflete o trabalho diário desenvolvido pela instituição.

“Queremos marcar positivamente o percurso de vida das pessoas e que este momento seja uma voz ativa para despertar a sociedade para o drama vivido por quem está em situação de sem-abrigo”, afirmou, acrescentando que o objetivo último seria “não ter de realizar este almoço”, o que representaria um sinal de progresso social.

A preocupação maior reside no aumento expressivo do número de pessoas a viverem na rua, fenómeno que, segundo Júlio Faceira Guedes, está particularmente associado à chegada de cidadãos imigrantes que, apesar de entrarem em Portugal ao abrigo da lei, não conseguiram posteriormente regularizar a sua permanência. Esta situação está a provocar uma sobrelotação das respostas existentes, com o CAT, apartamentos e quartos totalmente ocupados.

“Aguardamos a aprovação, por parte da Segurança Social, de dois apartamentos para acolher mais oito pessoas, mas mesmo assim é manifestamente insuficiente face às necessidades atuais”, sublinhou o responsável, alertando para a pressão crescente sobre os serviços de apoio social no concelho.

Como resposta estrutural ao problema, a CVP anunciou que, em 2026, será lançada uma iniciativa conjunta com a Câmara Municipal de Braga e o tecido empresarial local, com o objetivo de promover a empregabilidade e facilitar a integração social das pessoas em situação de sem-abrigo.

Também presente no evento, o presidente da Câmara Municipal de Braga reconheceu que o crescimento da cidade trouxe novos desafios sociais. João Rodrigues defendeu que “há teto para toda a gente”, mas admitiu que o aumento da oferta habitacional permitiria às instituições dar respostas mais eficazes. O autarca salientou ainda a importância de compreender as causas que levam estas pessoas a permanecerem em situação de sem-abrigo e reforçou a necessidade de um trabalho em rede entre as diferentes entidades.

O Arcebispo de Braga, D. José Cordeiro, manifestou igualmente a sua inquietação face ao aumento do número de pessoas sem-abrigo na cidade, apelando à procura de soluções concretas e à recusa da indiferença. O prelado defendeu um olhar marcado pela esperança e pela humanidade e valorizou o papel fundamental desempenhado por instituições como a Cruz Vermelha Portuguesa.

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