O presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) considera que o Jubileu católico quis ser um sinal de esperança num “mundo desentendido”, com “ameaças das grandes potências à estabilidade mundial”, como sucedeu agora na Venezuela.
Contactado pela agência Lusa por ocasião do Jubileu “Peregrinos de Esperança” que hoje termina em Roma, José Ornelas considerou que o ano santo católico correspondeu a um período “cheio de grandes problemas, a todos os níveis”.
José Ornelas destacou o “papel de cada país na construção da humanidade” e avisou dos riscos para paz mundial e o entendimento entre os povos.
Alertou ainda para os “problemas económicos e sociais” atuais, num “mundo cada vez menos configurado com aquilo que era um passado tradicional, em termos de escolhas políticas”.
“Nós somos um mundo cada vez mais global, mas um mundo, ao mesmo tempo, cada vez mais esfacelado pelas grandes potências, em que cada uma se julga no direito de atravessar as suas fronteiras e de não respeitar o direito internacional, só porque têm força”, alertou, referindo-se à operação dos EUA na captura do Presidente da Venezuela.
Os Estados Unidos lançaram no sábado um ataque contra a Venezuela para capturar o líder venezuelano, Nicolás Maduro, e a mulher, e anunciaram que vão governar o país até se concluir uma transição de poder.
“Isto é muito perigoso”, avisou José Ornelas, considerando que cabe à Igreja o esforço de construir uma “esperança global num sentido de fraternidade e de paz”.
“De outro modo, não vamos longe enquanto humanidade”, alertou.
Recordando as guerras recentes e a operação na Venezuela, que classificou como “ameaças de grandes potências a uma estabilidade mundial”, o também bispo de Leiria-Fátima disse que a esperança não é “uma questão teórica ou um Estado de alma”, mas sim “uma questão concreta”.
Esperança foi tema do Jubileu promovido por Francisco e encerrado por Leão XIV.
“Um ano jubilar é sempre um ano em que a Igreja marca um passo no decorrer de um tempo, em que se recordam as raízes e se procura adaptá-las ao tempo em que se vive”, afirmou o presidente da CEP.
Essa concretização da ação da Igreja no mundo é feita com o Caminho Sinodal, um processo de auscultação das bases promovido pelo Papa Francisco e que Leão XIV já anunciou que quer concluir, incluindo questões polémicas e fraturantes como o papel da mulher ou o celibato dos sacerdotes, entre outras matérias.
O “caminho sinodal que a Igreja está a fazer marcou todo este ano porque representa o voltar à Igreja como centro e como comunidade” que “responde aos problemas das pessoas”.
Agora, é “tempo de criar dinamismos novos para o tempo em que se vive”, mantendo sempre a luta pela justiça, “custe a quem custar”, e procurando ser “capaz de lutar pela inclusão de todos à mesa deste mundo”.
Antecipando que em 2026 se “adensem as nuvens da instabilidade, da injustiça e da guerra”, o bispo considerou necessários “corações que construam a paz” e “gente que se junte para lutar por ela, por meios pacíficos”, de modo a “encontrar caminhos novos para o mundo”.
Sob o tema “Peregrinos de Esperança”, o ano santo teve início a 24 de dezembro de 2024, quando Francisco abriu a Porta Santa da Basílica de São Pedro.
Em abril de 2025, a morte de Francisco alterou a tradição e o Papa que encerra das celebrações é o antigo cardeal Robert Francis Prevost, agora Leão XIV, que fecha hoje a mesma porta.
Para o Vaticano, o ano santo é uma tradição secular de fiéis que peregrinam a Roma de 25 em 25 anos para visitar os túmulos de São Pedro e São Paulo e receber indulgências para o perdão dos seus pecados, caso passem uma das várias portas santas abertas nas dioceses.
O Vaticano anunciou que participaram 33.475.369 peregrinos, com a Itália, os Estados Unidos e a Espanha as nacionalidades mais representadas.